Aromas frutados, harmonização com pratos,
degustação em ambientes elegantes, preços de tirar o fôlego... Tudo isso
poderia descrever uma boa garrafa de vinho, mas a bebida em questão é a
cerveja. Não aquelas marcas principais distribuídas aos milhões de garrafas
pela Ambev ou pela Schincariol, mas a produzida de forma artesanal por
microcervejarias, com matérias-primas selecionadas da Europa e receitas
guardadas a sete chaves por mestres-cervejeiros. “O sistema de elaboração e
fermentação artesanais agrada a um público mais refinado, com maturidade
gastronômica e interessado em novidades”, diz a presidente da Associação
Brasileira dos Profissionais em Cerveja e Malte, Cilene Saorin.
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| Alexandre Bazzo, da Bamberg: empresário paulista importa matérias-primas do sudeste da Alemanha para garantir a originalidade de sua fórmula |
A cerveja artesanal não agrada apenas a quem é fã
da bebida. Mesmo os menos entusiasmados são surpreendidos com a diversidade de
sabores e rótulos encontrados no mercado nacional. Tudo por causa do frescor e
dos sabores obtidos com as melhores matérias-primas. O que antes era consumido
em grandes quantidades ganhou status de degustação. A cerveja Deus Brut de
Flandres, fabricada na Bélgica, é tão refinada que é consumida em taças de
champanhe. Custa R$ 200 no Brasil, o preço de um bom vinho. A arte de fazer e
degustar cerveja replica uma tradição secular de países europeus, onde a
cultura cervejeira permanece intacta, mesmo após a industrialização e o
surgimento da produção em grande escala.
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Alemã made in Brazil: Microcervejarias, como a Bamberg,
elaboram sabores e aromas únicos para conquistar adeptos
e driblar a concorrência das marcas tradicionais.
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“Na Alemanha, cada vilarejo possui a sua microfábrica e os habitantes apoiam aquela cerveja como se fosse um time de futebol”, afirma Maurício Beltramelli, mestre em estilos de cerveja pelo instituto americano Siebel, em Chicago. Ao viajarem com mais frequência para o Exterior, muitos brasileiros adotaram o hábito da desgustação e não demorou muito para que as cervejas artesanais começassem a ser produzidas por aqui também. No entanto, apesar da recente expansão, elas ainda representam uma parcela pequena do mercado nacional. Dos 66,5 milhões de litros vendidos no Brasil no ano passado, apenas 0,15% corresponde às microcervejarias nacionais, segundo a Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe). A expectativa é otimista: chegar aos 2%, em dez anos. A microcervejaria Bamberg, em Votorantim, no interior de São Paulo, é um exemplo clássico da expansão desse segmento.
A empresa do cervejeiro Alexandre Bazzo usa apenas
matérias-primas importadas da cidade de Bamberg, no sudeste da Alemanha, para
produzir seus 40 mil litros por mês, distribuídos em 14 estilos diferentes da
bebida. Bazzo atribui parte do secesso ao reconhecimento internacional
adquirido pela Bamberg ao longo dos sete anos de existência. Isso porque,
apesar de ainda não ter exportação, sua cerveja já recebeu diversos prêmios de
competições estrangeiras. “Este ano ganhamos medalhas na South Beer Cup e na
Australian International Beer Cup”, diz Bazzo, que periodicamente submete seus
produtos à avaliação técnica estrangeira. Segundo o microempresário, que se diz
apaixonado por cerveja muito antes de abrir a Bamberg, essa valorização
internacional traz um retorno positivo à marca, que tem 500 pontos de venda em
todo o Brasil, principalmente em São Paulo.
“Gera bastante exposição da marca e, além disso, é muito bom ver técnicos estrangeiros confirmando a qualidade dos nossos produtos.” Atualmente, a fábrica da Bamberg ocupa uma área de 750 metros quadrados e até o ano que vem deve dobrar de tamanho – e de produção. Mas os planos não param por aí. Bazzo tem planos de abrir um bar-cervejaria, em São Paulo, em breve. O modelo bar-cervejaria não é algo tão recente para os brasileiros, mas se mostra um bom negócio pelo potencial de expansão. A Cervejaria Nacional, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, é um bom exemplo disso. Há um ano, o carioca Dudu Toledo montou o lugar com a ajuda do mestre-cervejeiro Luis Fabiani e dos empresários Marcus Ribas e Alexandre Cymes.
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| Arlindo Guimarães, da Amazon Beer: o cervejeiro paranaense produz 70 mil litros por mês e já planeja sua estrategia no mercado internacional. |
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| Sabor da floresta: A Amazon Beer, de Belém do Pará, mistura frutos da Amazônia para agradar aos paladares regionais. |
Hoje, o local recebe, em média, seis mil clientes
por mês. “O legal é que os consumidores da nossa cerveja veem onde a bebida é
fabricada”, afirma Toledo. Outro atrativo é o frescor da cerveja, que sai dos
barris com 100 litros de capacidade – que podem ser vistos da entrada do lugar
– diretamente para as mesas dos frequentadores. Das 175 microcervejarias pelo
País, a maioria e as mais conhecidas estão localizadas no Sudeste e no Sul,
origem do primeiro empreendimento do gênero, a gaúcha Dado Bier, criada em
1995. Mas existem outras cervejarias artesanais de destaque em outras regiões do
Brasil, como a Amazon Beer, em Belém, a capital do Pará.
A microfábrica, comandada pelo paraense Arlindo
Guimarães, tem capacidade para 70 mil litros de produção por mês e já pensa em
exportar para a China e os Estados Unidos. Feita com adição de frutos
amazônicos, como o taperebá e o bacuri, a Amazon Beer preza pela identidade
regional. “Eu não queria copiar nenhuma receita europeia, o intuito é valorizar
o nosso País”, afirma Guimarães. A estratégia diferenciada, segundo ele,
promete agradar aos estrangeiros, que gostam de produtos com a cara do Brasil.
Seja qual e de onde for a receita do mestre-cervejeiro, os consumidores do País
estão prontos para experimentar as novidades do mercado. “Afinal, quando a
gente se acostuma com uma coisa boa, fica difícil voltar atrás”, diz
Beltramelli.
Por Bruna BORELLI




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